Segunda-feira, 26.09.11

O primeiro-ministro de Cabo Verde discursou em crioulo na 66ª sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas. Bem, foi histórico por ter sido a primeira vez, mas os resultados serão positivos ou negativos para o futuro da língua portuguesa em Cabo Verde? Não sei, só o tempo dirá. Eu só espero que a ânsia dos "vanguardistas", o intento de se forçar "fazer parte" da história cabo-verdiana, não se transforme em populismo, na pura tentativa de galgar a simpatia do povo.


O futuro de Cabo Verde depende de reflexões profundas e de ações pensadas e repensadas para que, em nome do triunfo próprio, não se condene estas ilhas ao ostracismo perpétuo.

Em tempo das águas, tomara que a esperança perene que renasce a cada ano, não faça da esperança o desespero futuro.

E para não perder o mote.

Águas - substantivo feminino plural - o termo pode representar as chuvas e, no português da nossa terra (Cabo Verde), quer significar a época das chuvas, que vai em regra de julho a outubro (embora atualmente tudo esteja tão imprevisível)

Germano Almeida - Ponto & Vírgula (n.2, p. 19):
“...quando as águas eram boas, casavam-se” (Germano Almeida, em ).

Populismo - da acepção brasileira - a política fundada no aliciamento das classes sociais de menor poder aquisitivo, na tentativa (muitas vezes profíqua) de conseguir a simpatia do povo.

Ostracismo (Grego: ostrakismós): exclusão, proscrição, banimento; exílio.

Faço votos que o português permaneça não apenas como legado, mas língua viva em Cabo Verde (ando entretanto um pouco temeroso)

Artigo 9º da Constituição da República de Cabo Verde:

1. É língua oficial o Português.
2. O Estado promove as condições para a oficialização da língua materna cabo-verdiana, em paridade com a língua portuguesa.
3. Todos os cidadãos nacionais têm o dever de conhecer as línguas oficiais e o direito de usá-las.

 

Faço acrescer relevante e inteligente comentário de Pedro Cruz (27 set. 2011), cuja relevância motivou-me a integrá-lo ao post:

 

Acresce uma questão, política, da maior importância: Portugal e o Brasil, pelo menos, estão empenhados em consagrar o Português como língua oficial da O.N.U. A opção, política, de J.M.N. foi contrária a esse empenho, de cujos resultados C.V. também beneficiaria. Por outro lado, uma das grandes vocações dos Cabo-verdianos é o seu universalismo. O Crioulo, nas suas variantes, é a matriz cultural de cada Cabo-verdiano, mas prende-o à sua ilha e à sua comunidade. Nesse sentido «corta-lhe as asas» e fecha-o sobre si próprio. Limita-o. Com o Português, partilhado por milhões de pessoas em todo o mundo, Cabo Verde abre-se a ele e afirma o seu cosmopolitismo. Glosando Natália Correia e Fernando Pessoa, poderíamos afirmar, em tom pseudo-psicanalítico, que o(s) Crioulo(s) são a «Mátria» do Cabo-verdiano e o Português a sua «Pátria». Em suma, políticas que tendam a fechar os Cabo-verdianos nas suas variantes do Crioulo são, afinal, lesivas de uma parte importante da respectiva identidade e até comprometedoras do papel importante que os Cabo-verdianos podem e devem desenvolver internacionalmente. Cumprimentos e parabéns pelo seu excelente e útil blogue. Recomendá-lo-ei.



quintinocastrotavares às 11:13 | link do post | comentar | ver comentários (2)

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