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Tomei algumas caqueiradas, na escola primária

por quintinocastrotavares, em 28.11.11

Tomei algumas caqueiradas na minha infância, principalmente na escola. Não tanto das professoras, mas dos colegas abusados e valentões.

 

Quando, em português, fala-se em caqueirada, pode significar um montão de caco ou caqueiros, porção de utensílios velhos, tiroteio carnavalesco com cacos, pancada violenta, bordoada (coloquial), soco, bofetada (coloquial). É assim que encontramos as definições, por exemplo, na infopédia.

Podemos assim, equivocadamente, julgar que a caqueirada cabo-verdiana tem o mesmo significado, pois caqueirada quer também dizer (coloquialmente) pancada violenta, bordoada.

De fato, a caqueirada no português cabo-verdiano é a mesma caqueirada do português lusitano, mas, em Cabo Verde, essa pancada violenta tornou-se apenas uma pancada, muitas vezes mesmo sendo uma pequena pancada.

Quando, no português falado nas ilhas de Cabo Verde, dizemos caqueirada, quer representar, não uma pancada violenta, a (simples) pancada na cabeça com o nó dos dedos, ou seja, caqueirada em Cabo Verde é o mesmo que carolo, cascudo ou croque (regionalismo brasileiro).

Então, já sabe, quem em Cabo Verde toma uma caqueirada, levou um cascudo.

Caqueirada
   (substantivo feminino)
- montão de cacos ou caqueiros
- porção de trastes velhos
- tiroteio carnavalesco com cacos
- (coloquial) pancada violenta; bordoada
- coloquial soco; bofetada
- [Cabo Verde] pancada na cabeça com vara, ou com o nó dos dedos, carolo, cascudo, croque

publicado às 09:12

Já levou um trindoque?

por quintinocastrotavares, em 27.11.11

No nosso jeito de falar português (nossa língua, nosso jeito), aquilo que os brasileiros chamam de peteleco e os portugueses de piparote, chamamos nós de trindoque. Na infância, poucas são as pessoas que nunca levaram um trindoque.

Dizemos (os cabo-verdianos): Ele me deu um trindoque com força

 

Podemos dizer em português (cabo-verdiano) trindoque e, se alguém não souber o que significa, explique, pois é o mesmo que piparote (português lusitano) ou peteleco (português brasileiro). Ainda não encontrei a expressão nos (meus) dicionários, mas creio, como certo, que em breve estará entre os verbetes.

 

Trindoque

- subs. masculino, pancada com a cabeça do dedo médio ou indicador, depois de dobrado e apoiado contra a face interna do polegar, e despedido com força; o mesmo que piparote, peteleco, tálitro.

 

Não confunda com caqueirada! (próximo post)

 

* Se gostou deste post, talvez goste também de Calca com força! ou Dar sapatetas

publicado às 09:19

Obrigado, mãe! (poesia)

por quintinocastrotavares, em 26.11.11

A poesia que segue abaixo foi escrita por mim no ano de 2001, como sinal de agradecimento à minha mãe pela conclusão do curso de Direito na UFSC. Ela ficou impressa na versão final da monografia (na parte dos agradecimentos) e nunca antes a publicara, até julho deste ano, quando a inseri num post num blog que mantinha no Brasil, mas que agora, devido a muitos outros afazeres, e o fato de estar em Cabo Verde, não tenho conseguido atualizar (talvez venha a fechá-lo). Por isso, por ser este meu blog mais ativo atualmente e por se tratar da língua portuguesa, deixo transcrita a poesia, compartilhando com todos um pouco mais da minha vida (e meus sentimentos).

Obrigado, mãe!
Ainda sinto o eco do pilão batendo
No silêncio das madrugadas;
O barulho do fogareiro aquecendo
O óleo para as famosas frituras.

Recordo-me das lágrimas,
Da dor do teu silêncio,
Nas noites longas
Do meu estudo à luz do candeeiro.

Sei que querias mais,
Mas as vicissitudes da vida
Não permitiram outras fortunas.

Da vida maltratada,
Transformastes-me em poeta.
Da pobreza presenciada,
Concedestes-me sabedoria.

Mais do que mãe,
Tu fostes uma professora.
E na graça ou desgraça,
Aprendi que de tudo se pode rir.
(Quintino Castro Tavares)
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E para não perder o hábito
Candeeiro
- aparelho de iluminação, de forma e dimensão variáveis, geralmente eletrificado.

Fritura
- ato ou efeito de fritar; qualquer alimento frito; fritada.

Pilão
- instrumento para pilar; gral de madeira rija, onde se descasca e tritura o milho.
Fogareiro
- utensílio portátil de ferro, latão ou barro onde se acende o lume para cozinhar (ou aquecer o ambiente) e que funciona a carvão, petróleo, eletricidade ou gás [nós só tínhamos o a petróleo]

publicado às 10:05

Rolão com atum

por quintinocastrotavares, em 26.11.11

Pegando o mote do Blog Receitas de Cabo Verde (gostei do site) - sopa de "rolon" com atum - em português, deve-se dizer "sopa de rolão com atum".

 

Rolon em português, língua nossa com muito orgulho, é rolão. Gostamos mesmo de sopa de rolão, muito bom de manhã, para curar a ressaca da noite exagerada. Depois da festa de Nhá Santa Catarina (Santiago), 25 de novembro, é provável que pratos e mais pratos de sopa de rolão sejam devorados.

 

Manuel Lopes, Chuva Braba:

“Agora ela recolhia o rolão com ambas as mãos e ia-o deitando para o pilão ..... Todo o rolão tinha de ser reduzido a farinha” (p. 181).

 

Rolão

- substantivo masculino, parte mais grosseira da farinha (em Cabo Verde, farinha de milho moído grosso - farinha mais fina que a do xerém)

- [cabo-verdiano] milho moído grosso cozido em água, sal e outros temperos, a acompanhar normalmente o guisado (cabra, carneiro, garlinha)

 

Guisado

-refeição preparada com alimentos refogados e depois cozinhados com um pouco de água e por vezes vinho; ensopado; picadinho de carne.

 

Nhá

- subs. fem., de Brasil , Cabo Verde e Guiné, quer significar senhora.

 

Ressaca

- sentido figurativo, indisposição de quem bebeu (depois de passar a bebedeira) ou então o cansaço decorrente da noite passada em claro.

 

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* Se gostou deste post, pode ser que também goste de Cochir o milho

publicado às 09:20

Afinal, o xerém é só nosso?

por quintinocastrotavares, em 25.11.11

Julgava mesmo ser o xerém um prato exclusivamente cabo-verdiano, pois, dos muitos estrangeiros que já cruzaram meu caminho, não tive a oportunidade de ouvir alguém falando a respeito. Comi muito cuscuz no nordeste do Brasil, mas não me recordo do xerém.


Então, pesquisando no dicionário (alguém pode julgar um hobby estranho, mas gosto), descobri que xerém, de milho mesmo, tem também o Brasil na sua culinária (alguns dicionários indicam apenas a dança de roda ou uma espécie de polca), tem também Portugal.


O nosso é um pouco menos incrementado, mas é muito bom. Adoramos servi-lo para acompanhar o preferido (indiscutível opção santiaguense) prato de feijão pedra. A receita é simples, certa quantia de xerém, água, cebola, folha de louro e azeite (o resto é talento e criatividade).

Há quem prefira a expressão xarém. Segundo a wikipédia, o prato é típico de Portugal, tendo sido levado para o Brasil e Cabo Verde, onde também é considerado tradicional. Diz ainda que, em Portugal, o xerém é típico da região do Algarve, especialmente na cidade de Olhão, onde é preparado com com amêijoas, toucinho, presunto e chouriço, podendo ainda vir acompanhado de torresmos, carne de suíno ou sardinhas assadas.

Panela de Xerém do Blog Receitas de Cabo Verde

Xerém / xarém
- Substantivo masculino, milho pilado grosso (de modo que não passa na peneira). Os brasileiros também chamam de canjiquinha.

José de Alencar, O Sertanejo:
“As mulheres ...., umas pilavam milho para fazer o xerém; outras andavam nos poleiros guardando a criação para livrá-la das raposas” (p. 183)

Baltasar Lopes, Chiquinho:
“Até lhe falava nos passarinhos do céu que estavam à espera dos grãos de xerém para o jantar” (p. 239).

Teixeira de Sousa, Na Ribeira de Deus:
“Iam nesse momento saborear o guisado de capado mais o xerém da praxe” (p. 212).

 

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* Se gostou deste post, pode ser que também goste de Cochir o milho ou Camoca com leite

publicado às 23:06

Por que dizemos "mocar"? Amocar?

por quintinocastrotavares, em 24.11.11

Antes de buscar um motivo, apresento a palavra moçar que, confesso, inicialmente, levou-me a pensar decorrer dela a nossa expressão cabo-verdiana "mocar".


Pois bem, moçar, de moçar + -ar, verbo transitivo direto, toma o sentido de "tornar moça" (desvirginar) ou, intransitivo, "tornar-se moça ou prostituir-se". Diria, exempli gratia, "quando mostraram-lhe a vida, moçava noite adentro(!), sem se importar mesmo com quem" ou, como diz o Aulete, "mal chegaram à cidade, elas moçaram".

Mas...

Depois de olhar um ponto mais acima (nas entradas do dicionário), encontrei um dos significados da palavra "moca".
Parece-me, ao menos prima facie, que a expressão chula "mocar", utilizada (por nós) cabo-verdianos seja derivada de moca.

Em um dos sentidos, moca quer dizer café (café da Moca, cidade portuária da Arábia).

Noutro sentido, talvez daqui a origem de "mocar", significa cacete com uma maça na extremidade, clava. De moca, inclusive, vem a expressão amocar (esmocar, amocambar-se), ou seja, dar com a moca, como explica a Infopédia.


AmocarMoca Moçar Clava cacete 
 - dar com a moca;
- esconder.
 - café, café da Moca;
- cacete, clava.
 - tirar a virgindade (a uma moça) ou perdê-la;
- entregar-se à prostituição.
 - Pau pesado, mais grosso em uma das extremidades, que se usava como arma; maça.

 - Pedaço de pau com uma das pontas mais grossa que a outra;
- [brasileiro] pênis.

 

 

Maça
- Clava
- Arma de ferro ou de outro material, com uma extremidade esférica provida;
- Pilão cilíndrico usado pelos calceteiros; maço;
- Instrumento com que se maça o linho;
- Bastão.

 

Quem, portanto, amoca, dá com a moca.

publicado às 09:00

Serviu a mim o remoque

por quintinocastrotavares, em 23.11.11

"O segredo foi um remoque a propósito de certa loureira que passava..."

 

Encontramos esta passagem citada no iDicionário Aulete, do romance Senhora de José Alencar, que pode ser baixado gratuitamente, pois de domínio público (baixar aqui).


Em Cabo Verde, por vício de linguagem (erro na pronúncia), muitos dizem ramoque, mas fica, então, a partir de agora, corrigida a palavra. Diga remoque e não ramoque.


De uso comum nos diálogos cabo-verdianos, use remoque (substantivo) ou remocar (verbo) para se referir ao dito malicioso que encerra (sempre) uma intenção repreensiva ou ofensiva. Remocar (ou mesmo dar remoque, como dizemos em Cabo Verde) é tratar com exprobro, ou seja, lançar em rosto (jogar na cara), reprochar, criminar, acusar.

Remocar:
- exprobrar, censurar, repreender, vituperar; Lançar em rosto; reprochar, criminar, acusar.
- apreciar com remoque;

 

No Dicionário da Língua Portuguesa 2011 (Dicionários Editora - Porto Editora), encontramos ainda a variante remoquear.


Remoque
- Insinuação indireta e maliciosa.
- Zombaria, troça, motejo.

Do Aurélio, encontramos a passagem: “Várias vezes, no correr dos tempos, naturais e reinóis se haviam defrontado, e uma guerra contínua de chufas e remoques lavrava por todo o território da colônia.” (Ronald de Carvalho, Estudos Brasileiros, 1a série, p. 46.)

Poderia dizer com segurança, "passou-me um remoque daqueles a respeito do trabalho que me fez sem cobrar nada".

publicado às 10:17

Dar sapatetas

por quintinocastrotavares, em 10.11.11

Dava então sapatetas sempre que alguém mandava-lhe fazer alguma coisa.

 

Pois é certo, em Cabo Verde usamos (ao menos usávamos muito) sapateta para exprimir o espernear em sinal de revolta a alguma imposição ou ordem que nos desagrada: as crianças adoram dar sapatetas quando não querem fazer algo (bater os pés no chão, em sinal de desagrado).

 

Sapateta:

  1. tipo de sapato raso, chinela
  2. barulho produzido pelos saltos (tacão) ao andar
  3. o som produzido pelos saltos dos sapatos batendo uns contra os outros
  4. espernear [do cabo-verdiano]: dar sapatetas

publicado às 23:31

camoca com leite

por quintinocastrotavares, em 11.10.11

Todo bom cabo-verdiano que se preza não resiste a um copo de camoca com leite ou até mesmo com água. Eu não sei bem a origem, mas adoramos alimentos à base de milho.

 

Então, já sabes, camoca também é português, na nossa língua, no nosso jeito de falar. Quem passou pelo Liceu há de se lembrar de Teixeira de Sousa:

"Precisa de sol e de camoca com leite" (Contra Mar e Vento)

 

Camoca: substantivo feminino, milho torrado e moído muito fino.

publicado às 08:06

No alto do cutelo...

por quintinocastrotavares, em 10.10.11

Bem, é provável que quase todos saibam que cutelo, do latim cultellu, quer representar um tipo de instrumento cortante (geralmente semicircular e de ferro), usado por cortadores.

 

 

 

Mas, cutelo tem ainda um sentido peculiar no português cabo-verdiano, significa aquilo que os brasileiro normalmente chamariam de morro (outeiro). É assim que no alto do cutelo muitos ficavam à espreita do primeiro bote que vinha beirar a gamboa.

 

 

 

Foto do site http://ecoviagem.uol.com.br/brasil/santa-catarina/urubici/morro-da-igreja-1828m/

(Riba cutelo a "cimbrar" o mundo)

 

 

 

 

 

 

 

Cutelo: monte, colina.

Outeiro: pequeno monte; colina.

Beirar: verbo transitivo direto - movimentar-se à beira ou margem de; abeirar-se, aproximar-se de.

Cimbrar: verbo transitivo direto, dobrar cruzar.

publicado às 08:43


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