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De riba (de) casa...

por quintinocastrotavares, em 07.10.11

De riba casa, o menino jogava pedras a quem passava.

 

Nós poderemos achar estranho, pois com frequência dizemos "riba" (de) alguma coisa em crioulo. Verdade, mas podemos também fazer essa construção em português ("pra riba da língua").

 

Riba: do latim ripa - subs. fem. - pode significar a ribanceira ou ribeira, mas também, como a usamos popularmente, a parte mais elevada: minha mãe não gostava que desarrumássemos o lençol de riba da cama; pode também significar para cima de: de repente, sem dizer nada, partiu pra riba de mim.

Como cantou Caetano Veloso:

Kalu, Kalu
Tira o verde desses olhos de riba deu
Kalu, Kalu
Não me tente se você já me esqueceu
Kalu, Kalu
Seu olhar depois do que me aconteceu
Com certeza só não tendo coração
Fazer tal judiação
Você ta mangando di eu
Com certeza só não tendo coração
Fazer tal judiação
Você ta mangando di eu.

 

Ribanceira: despenhadeiro, precipício; rRampa muito íngreme.

Ribeira: curso de água abundante, menos largo e profundo que um rio.

publicado às 17:08

Sarrabulho de Tartaruga

por quintinocastrotavares, em 30.09.11

Os portugueses preferem sarrabulho de porco, nós, cabo-verdianos das muitas achadas que existem por aí, preferíamos sarrabulho de tartaruga.

Quando ainda não era crime comer tartaruga (até hoje não entendi a razão de se proibir "o comer"), recordo-me das manhãs de sábado em que, ao lado do chafariz, pessoas, aos montes, aglutinavam-se para comprar e comer sarabudja.

 

Então já sabes, em português, podemos e devemos usar o termo sarrabulho para se referir às sarrabulhadas diversas que fazemos em Cabo Verde

 

Sarrabulho - subs. masc. - na culinária, iguaria feita com carne, fígado, banha, etc, etc. Na variante brasileira, encontramos, na Bahia (e outras regiões nordestinas), o sarapatel.

 

sarrabulhada, substantivo feminino, significa grande quantidade de sarrabulho; ou de modo figurativo, confusão, desordem.

 

Chafariz: substantivo masculino, representa a construção com uma ou várias bicas (ou torneiras), por onde jorra água que serve para uso da população; no Brasil é comum o uso do termo para significar as fontes ornamentais (que costumamos ver nas praças).

publicado às 08:47

Calca com força!

por quintinocastrotavares, em 29.09.11

- Calca, calca com força! - disse meu sobrinho Alex, de sete anos, ao meu filho Pedro

- Calca? - perguntaram os mais velhos em gargalhada

Deixei a euforia passar e então expliquei a todos que calcar também é português.

 

Quem em crioulo já pediu alguém para calcar alguma coisa, mas quando fala em português fica reticente quanto ao uso do mesmo verbo?

Calcar, do latim calcare, também é português legítimo e não precisamos ter medo de usá-lo. Pelo contrário, devemos incentivar o seu uso, já que representa o nosso jeito da nossa língua portuguesa.

 

Calcar - verbo transitivo direto:

 

Se estás calcando os meus dedos, provavelmente estarás me pisando, comprimindo os meus dedos;

Se me mandas calcar a tampa (ou tampo de alguma coisa), devo apertar com força, comprimir;

Se calcas o meu braço, deves estar apertando o meu braço ou, então, em linguagem figurada, me oprimindo ou humilhando.

 

Portanto, já sabes, calcar faz parte da nossa língua, do nosso jeito de falar português.

publicado às 13:25

De Capote na Bisca

por quintinocastrotavares, em 27.09.11

Capote, de origem francesa, ao menos na primeira acepção (capote, capot), pode significar peça de vestuário (casacão), mas também pode significar a vitória de alguém em jogo que o adversário não alcança a metade dos pontos. Em Cabo Verde, é neste segundo sentido que mais utilizamos o substantivo capote, principalmente nas partidas de bisca e ouri (oril), ninguém quer levar capote. Se não se tira o capote, a pontuação do vencedor é duplicada.

 

Capote: subs. masc., reconhecimento da vitória de alguém em jogo de aposta, pelo duplo ou duplo dos pontos alcançados.

 

Normalmente, tenta-se tirar o capote ou dar um capote

 

“Você o que quer é um capote; ande, vá buscar o gamão” (Machado de Assis, Dom Casmurro, p. 9.)

 

Bisca: substantivo feminino que designa vários jogos de cartas.

 

- Vamos jogar a bisca? - pergunta o novato

- É muito atrevimento, queres levar um capote - responde o jogador.

 

* Sobre o oril (ouri no nosso português), veja excelente post da Lantuna:

Se quiser jogar on-line, acesse http://ouri.ccems.pt/jogo/Ouri.htm (incompatível com o Mozilla, acessar no Internet Explorer)

publicado às 12:36

O crioulo na ONU ou o temor da fé nas águas.

por quintinocastrotavares, em 26.09.11

O primeiro-ministro de Cabo Verde discursou em crioulo na 66ª sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas. Bem, foi histórico por ter sido a primeira vez, mas os resultados serão positivos ou negativos para o futuro da língua portuguesa em Cabo Verde? Não sei, só o tempo dirá. Eu só espero que a ânsia dos "vanguardistas", o intento de se forçar "fazer parte" da história cabo-verdiana, não se transforme em populismo, na pura tentativa de galgar a simpatia do povo.


O futuro de Cabo Verde depende de reflexões profundas e de ações pensadas e repensadas para que, em nome do triunfo próprio, não se condene estas ilhas ao ostracismo perpétuo.

Em tempo das águas, tomara que a esperança perene que renasce a cada ano, não faça da esperança o desespero futuro.

E para não perder o mote.

Águas - substantivo feminino plural - o termo pode representar as chuvas e, no português da nossa terra (Cabo Verde), quer significar a época das chuvas, que vai em regra de julho a outubro (embora atualmente tudo esteja tão imprevisível)

Germano Almeida - Ponto & Vírgula (n.2, p. 19):
“...quando as águas eram boas, casavam-se” (Germano Almeida, em ).

Populismo - da acepção brasileira - a política fundada no aliciamento das classes sociais de menor poder aquisitivo, na tentativa (muitas vezes profíqua) de conseguir a simpatia do povo.

Ostracismo (Grego: ostrakismós): exclusão, proscrição, banimento; exílio.

Faço votos que o português permaneça não apenas como legado, mas língua viva em Cabo Verde (ando entretanto um pouco temeroso)

Artigo 9º da Constituição da República de Cabo Verde:

1. É língua oficial o Português.
2. O Estado promove as condições para a oficialização da língua materna cabo-verdiana, em paridade com a língua portuguesa.
3. Todos os cidadãos nacionais têm o dever de conhecer as línguas oficiais e o direito de usá-las.

 

Faço acrescer relevante e inteligente comentário de Pedro Cruz (27 set. 2011), cuja relevância motivou-me a integrá-lo ao post:

 

Acresce uma questão, política, da maior importância: Portugal e o Brasil, pelo menos, estão empenhados em consagrar o Português como língua oficial da O.N.U. A opção, política, de J.M.N. foi contrária a esse empenho, de cujos resultados C.V. também beneficiaria. Por outro lado, uma das grandes vocações dos Cabo-verdianos é o seu universalismo. O Crioulo, nas suas variantes, é a matriz cultural de cada Cabo-verdiano, mas prende-o à sua ilha e à sua comunidade. Nesse sentido «corta-lhe as asas» e fecha-o sobre si próprio. Limita-o. Com o Português, partilhado por milhões de pessoas em todo o mundo, Cabo Verde abre-se a ele e afirma o seu cosmopolitismo. Glosando Natália Correia e Fernando Pessoa, poderíamos afirmar, em tom pseudo-psicanalítico, que o(s) Crioulo(s) são a «Mátria» do Cabo-verdiano e o Português a sua «Pátria». Em suma, políticas que tendam a fechar os Cabo-verdianos nas suas variantes do Crioulo são, afinal, lesivas de uma parte importante da respectiva identidade e até comprometedoras do papel importante que os Cabo-verdianos podem e devem desenvolver internacionalmente. Cumprimentos e parabéns pelo seu excelente e útil blogue. Recomendá-lo-ei.

publicado às 09:13

QUEM É MAIS POSUDO, BADIO OU SAMPADJUDO?

por quintinocastrotavares, em 25.09.11

No português falado em Cabo Verde, badio é badio e sampadjudo é, isso mesmo, sampadjudo Pensou que seria “são palhudos”? Não, os “palhudos” são outros (talvez outrora), sampadjudo é mesmo sampadjudo.

 

Sampadjudo: do português da nossa terra, adjetivo relativo dos pertencentes às ilhas de Barlavento, do arquipélago de Cabo Verde (África). Como substantivo, o natural ou habitante dessas ilhas.

Luís Romano (Ilha, p. 157):

“...foram buscá-lo, depois do almoço, para atender um fulano que chamavam ‘Holandês’, parece que filho da Ilha, ‘sampadjudo’ que chegara de fora carregado de dinheiro”.

 

Badio: adjetivo e substantivo daquele pertencente à ilha de Santiago; o natural ou habitante dessa ilha.

“E vive com um badio preto, da cor deste carro.” (Teixeira de Sousa, Xaguate, p. 15.)

“Um caso sério, este badio-de-pé-rachado.” (Manuel Ferreira, Morna, p. 25.)

 

Badio-de-pé-rachado já foi depreciativo, mas não creio hoje manter-se esse menosprezo.

 

A propósito, posudo também é português, mas de origem brasileira.

Posudo – adjetivo e substantivo masculino – de pose + udo – que ou aquele que faz ou tem pose, que é cheio de pose, cheio de si.

publicado às 08:04

O BALAIO DE TENTÊ DA MINHA MÃE

por quintinocastrotavares, em 25.09.11

Minha mãe veio de S. Nicolau e, com ela, todos os hábitos tradicionais do povo daquela ilha. Ainda é vive na minha memória o seu jeito “estranho” o balaio de tentê (ou tente). Era diferente o próprio balaio, diferente mesmo dos que costumava ver as badias usando.

 

Acho que em todas as ilhas da nossa terra se usa o balaio de tentê.

 

Tentê – substantivo masculino – peneiração, peneiramento.

publicado às 08:03

O MEU POVO NÃO É SORNA

por quintinocastrotavares, em 24.09.11

Não creio haver dúvida quanto à identidade portuguesa deste termo, talvez para os mais novos ou os que pouco leem. Sorna é a pessoa indolente, preguiçosa, inerte.

 

Se todos pararem de sornar, nosso país vai progredir com certeza.

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publicado às 08:02

TEMOS MESMO DE DIZER “VAGA-VAGAS”?

por quintinocastrotavares, em 23.09.11

Baga-baga é um substantivo feminino originário do crioulo, mas eu não preciso dizer “vaga-vaga”. No português, quando precisar (ou mesmo querer) dizer baga-baga, deve dizer baga-baga, e no plural Baga-bagas.

 

Se os “puristas” aceitam o cupim brasileiro, por que razão não haveriam (= teriam) de aceitar a nossa Baga-baga? Porque somos mais pobres? Pequenos em tamanho?

 

Baga-baga (plural: baga-bagas) – aqui ou na Guiné – nome vulgar extensivo a certos insetos sociáveis (alados ou ápteros) que normalmente atacam as madeiras, destruindo construções, conhecidos também por térmite, formiga-branca, térmita, terma, salalé, cupim, etc.

 

Baga-baga afinal é mesmo baga-baga.

publicado às 08:01

MATRAQUILHOS, joguei pouco

por quintinocastrotavares, em 22.09.11

De origem lusitana, há quem tenha medo até de usar a palavra matraquilhos. Há quem tenha medo, enfim, de abrir a boca. Mas para os temerosos (de tudo), nada jamais sairá certo.

 

Matraquilhos: substantivo masculino plural – jogo de futebol de mesa, em que os jogadores impulsionam uma pequena bola, manuseando varões a que estão presos os bonecos-jogadores que representam os dois times. No brasileiro, totó, pimbolim.

publicado às 08:58


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